de pequim, china

Posted on August 6, 2012

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[o meu herói uigur que lê romances ingleses]

Azat* tem um herói. Diz a lenda que esse herói, Oghuz Khan, nasceu de rosto azul-celeste, lábios vermelho-fogo, olhos de avelã e cabelo negro. Matou o pai, casou duas vezes e teve seis filhos. Esse herói fala desde o primeiro dia de vida, bebe leite de égua fermentado e atinge a maioridade ainda antes dos dois meses. Esse herói aparece de escudo, de lança, de arco e flecha, monta o mais robusto dos seus cavalos, mata o dragão Kiyant e representa a origem do povo turcomano.
Azat vê em Oghuz Khan a bravura de um homem, que é sangue do seu sangue, pele da sua pele, o seu verdadeiro ponto de partida. Azat é uigur, uma das 56 minorias étnicas da China, nasceu e cresceu em Urumqi, capital da Região Autónoma de Xinjiang, no noroeste do continente chinês.
E como qualquer herói semi-mitológico, Oghuz Khan tem virtudes que o homem comum – neste caso Azat – não consegue alcançar. Não que lhe falte heroísmo ou coragem, fé ou determinação. Não. Falta-lhe um passaporte.
Sim, porque se Azat tivesse um passaporte, já há muito teria arreado o cavalo e ido além do império de Khan. Esse sim, era o seu sonho, pisar as terras dos seus queridos clássicos ingleses, que tem o hábito de imprimir e de ler em folhas A4.
Mas Azat é uigur muçulmano. E para quem tenha algum interesse ou conheça um pouco mais da situação de Xinjiang, isto basta. Para um uigur, a simples aquisição de um passaporte não é fácil.
Azat tem 30 anos, trabalha como professor de inglês em Urumqi e recebeu uma bolsa para estudar alemão durante dois semestres em Pequim. Quando nos conhecemos, há cerca de um ano, andava imerso num longo processo de candidaturas a mestrados nos Estados Unidos e no Canadá. Nos tempos livres, sentava-se em cafés e acompanhava os tais romances ingleses de que falei com uma taça de café preto.
Há pouco menos de um mês, no Twin Windmills, um pequeno café no norte da capital chinesa, corrigíamos os meus deveres de Mandarim. Azat pôs a mão à frente da boca, baixou o tom de voz, como que para se certificar que ninguém escutava a nossa conversa, e disse: “Fui à tal livraria e comprei `O Prisioneiro de Estado`”, referindo-se à obra proibida de Zhao Ziyang, antigo Primeiro-Ministro e Secretário-Geral do Partido Comunista da RPC.
E continuou: “Li tudo em dois dias porque tinha medo de viajar com o livro. Depois voltei à livraria, expliquei bem a situação e pedi que me deixassem trocar este livro por outro”.
Não posso deixar de sentir estranheza, também respeito pela honestidade, quase infantil, de Azat. Tento conservar na memória o cuidado com que sempre escolheu as palavras para falar comigo.
Nessa tarde no Twin Windmills, naquela que foi a última vez que nos encontrámos, abracei-o. É que eu pelo menos preciso de um herói de carne e osso. E Azat, o meu herói uigur, conseguiu finalmente um passaporte. E vai partir.

*nome fictício

[publicado no jornal Ponto Final, Macau]

 

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